Cris Moreira

Autora de “Bolha de Sabão”, “Maçã do Amor” e “Tentativas

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É apaixonada pelas palavras e seus efeitos, sem vislumbre de cura. No sentido conotativo, Cris Moreira é aprendiz de escritora. No denotativo, é publicitária não-praticante. Atualmente, tem como mestre Charles Kiefer. Já teve contos publicados nas antologias: 102 que contam (2005), 30 Contos Imperdíveis (2006) e 103 que contam (2006). Nasceu em Porto Alegre, num ano de muito calor, não acredita em signos. E segue em busca da palavra exata, da emoção intensa, da história que vale a pena ser escrita.

Atualmente escreve a coluna Friday #3 no site www.selfportraitchallenge.net, e assina como A Autora www.overcomeyourfear.blogspot.com, e pode ser encontrada no moreiracris09@gmail.com


Falta de ar

A imagem do quintal da casa da minha infância ao sol do verão, cheiro da grama no sol, a grama pinicando na pele, coceira, bichinhos, joaninhas, minha caixa de tatu bolas, sorvetes pingando na roupa, cheiro de fritura velha da padaria da esquina das férias na casa dos meus avós, um espantalho com cabeça de abóbora segurando um balão de cabeça de abóbora, ei, eu sonhei com isso ainda recentemente, será que a morte viria para mim como um espantalho de cabeça de abóbora? Duvido, ele-espantalho começou a caminhar, a trazer a abóbora balão, nuvens, muitas nuvens, temporais, o temporal que fez faltar luz no meu colégio, na cidade inteira, que fez meu pai me esquecer no colégio, por causa da chuva, dos engarrafamentos, dor, muita dor, onde está o ar?, onde está o ar? E onde é que está o alarme pra eu desligar? Meu coração está batendo mas não tem ar, mais nuvens, minha primeira nota baixa, castigos, fugas de casa, corridas carregando malas para não passar da outra esquina, não, não, não quero coisas ruins para quando eu morrer, se é que eu vou morrer, onde é que foi parar o ar da atmosfera que eu não consigo respirar, será que o efeito estufa é isso?, documentários da tevê, a voz do locutor narrando o fim do mundo a partir da nova guerra mundial, bombas atômicas formando cogumelos gigantes por todo o planeta, escuro, nuvens de poeira, fuligem, tapando o sol, o sol explodindo, não, não, coisas boas, respira, respira, droga, onde está o ar, o calor está escapando, está frio, sempre quando tenho frio ele me esquenta, onde será que ele está agora que não está aqui, um abraço, o corpo dele quente sobre o meu, o coração dele batendo tão forte que eu sentia no meu, era assim quando dormíamos juntos, eu abraçada nele, os braços dele fechando nas minhas costas, eu com falta de ar de dormir encostada no peito dele, seria isso então, estava dormindo, num abraço de urso de novo, estou sufocada mas com frio, não pode ser isso, será que eu vou morrer? Não, não, não dá agora, não posso deixa-lo sozinho, quem iria cuidar de mim?, e de quem ele iria cuidar? Não existiria outra pessoa no mundo tão necessitada de salvação como eu, da salvação dele, do abraço dele, do beijo dele que me coloca sempre de volta nos trilhos, no meio dos meus choros sem razão de ser. Não enxergo nada, não sinto nada, não respiro, mas ainda estou aqui, ainda estou viva, preciso voltar, preciso encontrar o caminho de volta para o meu corpo, para o corpo dele, para o mundo, ele não pode ficar sozinho, o mundo viraria um deserto, não posso ser tão má, tão egoísta assim, festa da minha formatura, beijo no elevador do prédio, o alarme de incêndio está tocando de novo, olha só, verão, calor, estou com calor, acho que é da dor, as vozes, muitas vozes, no aeroporto quando voltava da minha viagem tinha vozes, eu carregava as flores que ganhei de uma amiga antes de embarcar, senti tanta vontade de chorar naquela hora, porque estava indo para casa, a minha casa, quando virei a chave do meu apartamento, quando ele levou champanhe e nós bebemos da garrafa porque não encontrava os copos, agora estou com sono, mas não posso dormir, se eu dormir agora posso não acordar mais, lembrar mais, o show que ele não foi comigo porque estávamos brigados mas eu só pensava nele, a formatura dele, que eu fui mesmo depois de termos brigado, de como ele me disse pra deixar de ser boba e me beijou na frente de todo mundo, a festa inteira parou, o mundo inteiro parou naquela hora, depois disso não brigamos mais, nunca mais, e nem iríamos brigar se dependesse de mim, só quero poder dizer que não quero mais brigar, não quero morrer agora, eu ainda tenho que dizer que só você me entende, só você tem o abraço que eu preciso quando estou triste quando estou contente quando quero fugir quando quero dormir, não posso dormir agora, eu quase sinto a mão dele na minha, um último beijo, uma última piscada, uma última vez ele me puxou de volta para a calçada, não, não naquela rua, o carro, claro, que não obedeceu o guarda, acho que o guarda não o mandou parar, acho que ele não me mandou caminhar, acho que eu simplesmente fui, maldita ligação que ele atendeu, espero que seja alguém muito importante, só perdôo se for alguém muito importante, porque eu fui caminhar mas você se virou e não me puxou, falhou no teste diário, falhou no detalhe, raiva, que vontade de ir lá socar aquele motorista, deve ter fugido já, engraçado, parece agora como quando uma abelha me mordeu e meu pescoço ardeu muito, como choque , ai, meu gato de estimação que fugiu, do meu pijama com um urso de pelúcia no peito, meu pijama que era dele pra dormir na casa dele, as fronhas dos travesseiros  sujas de rímel, de batom, de lágrima, de sonhos bons, não como aquele do espantalho, que estava chegando perto, que está chegando perto, não quero ver não quero, preciso respirar preciso respirar…

        * Publicado em 103 que contam, org. Charles Kiefer; ed. Nova Prova

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3 Respostas para “Cris Moreira

  1. “Bolha de Sabão” e “Maçã-do-Amor” são escritos com a fina percepção do quão frágil é a condição do sentimento humano.

    Ponto para você garota. =)

  2. Josimara Tonella- Estigarribia

    Oi, Cris

    adorei te ver, pois me parece que ja te conhecia ha tempos
    curti muito teu conto ~ Bolha de sabao~ parabens!

    beijos, Jo

  3. OI Cris, parabéns por teus textos. Achei fantástica a sensibilidade que empregas ao tratar de momentos, lembranças e sentimentos. Suas palavras são leves e ao mesmo tempo intensas. Embarquei na leitura de “Falta de ar” e me senti como em uma viagem pelo túnel do tempo onde pude reviver muitas sensações perdidas no meu passado. Beijo. Josi.(Do LFG)

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