Daniela Langer

Autora de “Arqueologia das Práticas”, Em todas as portas” e “Primo Lucas”.

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Durante horário comercial, Daniela Langer desenha marcas e websites para sustentar um vício que tem desde pequena: deglutir (bons) livros. Como Aristóteles já previa, esse tanto de matéria precisou ser canalizada para algum lugar, por isso a Dani escreve. Está nas antologias Brevíssimos!, 102 que Contam e 103 que Contam. Foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos 2005, da Secretaria Municipal da Cultura do Recife, e no Concurso CK 2006 de Contos. Volta e meia é vista em seu sítio plantando laranjas, alimentando as mancuspias ou tirando areia dos livros: http://www.ordinariedades.blogger.com.br


No inferno é sempre assim

Era uma sexta-feira de dezembro e o dia parecia ter preguiça de começar. A mesma lombeira que o menino sentia ao sair da cama, vestindo o calção apertado, o corpo indo até a cozinha em passos de costume e não de querer. Gotas de suor apostavam corrida pelas costas magras enquanto sentava à mesa, olhos opacos na caneca de lata. Adivinhou a mistura de muita água e pouco pó de café antes de sentir o gosto de nada — a mesma modorra insossa da vida.

Um calor rachando a cabeça, rachando a rua de terra. E se por acaso tivesse a sorte de ter uma galinha no pátio, fritaria ovos no asfalto. Dezembro, o sol inundando a cidade. Inundando Porto Alegre, uma cidade que não serve ao verão. Mormaço pesando ombros, fazendo valer cada gota de umidade no ar. Eram quase sete horas e daqui a pouco desceria até o asfalto. O corpo sendo pouco contra o muro, parecendo um gato magro, um gato preto que caminha rente à parede, evitando o sol.

Porque era assim ¾ os dias arrastavam-se virando semanas e as semanas viravam meses e os meses somavam anos, sempre os mesmos, girando trezentos e sessenta graus ¾ tinha se acostumado em acreditar que estar vivo era acordar muito cedo e ver entre as frestas do barraco que o sol ainda não tinha nascido. Que isso que as pessoas chamam de vida não era outra coisa senão passar por baixo da roleta do ônibus, levando uma caixa cheia de balas de goma. E o que outros diziam ser destino, limitava-se ao cotidiano de tentar voltar para casa com a caixa vazia, o bolso cheio. Não por felicidade, simplesmente para evitar uma surra.

Mesmo após a partida do pai, até depois que vieram avisar que o corpo havia sido encontrado jogado na vala, perto da sinuca do Waldinei. Ainda assim, sentia as costas arderem nas marcas da fivela quando tudo que via durante o dia era seu próprio rosto no reflexo dos automóveis. Oferecia os doces, dois por um, três por dois, um por nada poderia dizer para aqueles que, de rabo de olho, evitavam mirada. Os vidros continuariam cerrados, guardando pessoas programadas pela temperatura constante do ar condicionado.  Em casa, noite após noite, a caixa quase cheia em cima da mesa, a mãe nada dizia. Servia a comida enquanto a televisão fazia às vezes de família, contando a rotina de outras vidas. Deles, se ouvia apenas o ruído de colheres nos pratos lascados, catando o pouco remexido pelo balanço do ônibus. O pouco do almoço que a mãe havia aprendido fazer sobrar na casa da patroa.

E agora, era apenas uma sexta-feira. E se não fosse pelo pedido da mãe na noite anterior, passearia pela irrelevância de não ter no que pensar. Subiria no ônibus, engatinharia por baixo da roleta, empurraria o rosto contra os vidros fechados, sentiria o açúcar das balas melando os dedos. Os olhos pretos, o rosto preto, as sobras no final do dia. Um resto de vida.

Bebeu o café, calçou os chinelos, pegou a caixa das balas e, de cima da mesa, o envelope branco que a mãe havia deixado. “Uma conta. Tu paga pra mim amanhã de manhã?”. Não tinha entendido direito, coisa da patroa que tinha viajado e deixado por fazer. “Pode ser na loteca perto da tua sinaleira. Eu sou atrapalhada com essas coisas, tu sabe”. E a mãe era. Não sabia ler e nem sabia desenhar o nome. Ele sabia fazer o troco e adivinhar o que diziam os letreiros das propagandas. Também não era tanto dinheiro assim, desceria na frente da casa lotérica, pagaria a conta, guardaria o comprovante no bolso e de noite entregaria para mãe. “Não vai perder o tal do papel, guri”. Não, ele não perderia o papel. A patroa nunca iria saber, pensaria que tinha sido a mãe e assim ficaria satisfeita. Porque a mãe era atrapalhada e não sabia ler, “mas faz tudo que a gente pede. E hoje em dia não se acha mais empregada que dê para largar dinheiro na mão”.

Fervia-lhe a cabeça, suor brotando no cabelo. O envelope rente à barriga, por baixo da camiseta. Molharia tudo, mas não importava. Dinheiro valia igual, molhado ou seco. Descia o morro pensando nada, quando viu a sua frente um dos seus. Um com quem divida o espaço largo da sinaleira. Mais um menino dos dedos doces que alcançou em uma corrida. Acompanhando o passo gingado do outro, cumprimentaram-se. A areia seca virando nuvem vermelha de pó.

Sol amarelo, chão vermelho transformando em laranja a estação. Abraçados pelo ar quente de dezembro, pareciam irmãos. Todos iguais esses meninos de olhos foscos e risos pardos. No ônibus, comentou sem vontade que desceria uma parada antes, precisava fazer uma coisa “lá pra mãe”. O amigo não parecia muito interessado, uma outra euforia rasgando a boca de poucos dentes, sorrindo a ausência de cuidados. Não iria para sinaleira. Um trabalho novo, “consegui uma coisa aí”. Com umas pessoas, gente importante. Estava cansado de voltar sempre com meia dúzia de notas sujas, as balas derretendo ao sol. E ele não estava? Ouvia sem ouvir, pensando que até poderia estar. Mas que trabalho era tão diferente? E ainda essa, hoje, ter que descer uma parada antes, ficar sendo soma em fila.

Quando saltou do ônibus, era apenas a mesma quietude de sempre — a mesma sensação maçante de conhecer os outros dias. Dois moleques andando lado a lado, dividindo em gotas gordas o insuportável calor do verão. Despercebidos entre tantos que terminavam mais uma semana. Um dia de adiantar os minutos e pular tarefas, projetar compromissos para o final da tarde, pensar no alívio do ar condicionado em shoppings e cinemas. Mas ele não conhecia a ânsia por sextas-feiras, ele que flutuava entre lufadas de mormaço, vendo prédios, carros, pessoas, com o olhar molhado transformando a cidade em miragem. O envelope grudado à barriga — e nesse minuto teve uma idéia, faísca que lhe surgiu, a primeira em muito tempo, que era engraçado ter algum dinheiro, que é coisa de matar o gosto, fazendo companhia para a sua fome, coisa de gosto amargo.

Azul e letras brancas, a placa da lotérica submergia no ar espesso. Não havia fila, apenas uma moça de tranças compridas fazendo uma aposta. Logo atrás deles entrou uma senhora gorda abanando o rosto com volantes da mega-sena. Seios quase pulando para fora da blusa apertada, corpo largo impedindo que o pouco ar entrasse pela porta estreita. Um inferno o calor na loja pequena. E porque no inferno é quente e faz verão o ano todo, trabalhava, já cansada, uma mulher do outro lado do balcão. Os meninos arrastaram os chinelos, seguidos pelo olhar desconfiado do segurança que deixou seu posto e entrou com os dois, parando ao lado do caixa. Como alguém importante.

Costume pela constante vigília de tantos olhos, costume pelas caretas tortas que sempre haviam recebido. Descaso, por saber de jeito simples que nada demais ali queriam. Por qualquer motivo ou por nenhum, os meninos não notaram o homem que continuava fazendo pose de herói, comentando para as paredes que nenhum vagabundo tinha roubado sequer um tostão por ali. A voz grossa misturada com reclamações da senhora gorda, suor escorrendo pelo regaço, afinal estava insuportável viver nessa cidade, essa temperatura era de matar e além de tudo tinha que ficar enfrentando filas, dividindo espaço com pivetes sujos.

A moça de tranças passou pelo menino que não chegou a falar. Porque foi tão rápido e porque não esperava. Queria pagar uma conta está tudo aí nesse envelope e desculpa o envelope meio molhado mas prendi no calção para não ter perigo e eu suo muito mas dinheiro é dinheiro né então tá tudo aí só não esquece de me dar o papelzinho. Assim seria, mas nada disse. Colocou a mão debaixo da roupa no mesmo instante em que o amigo levantou os braços, espreguiçando a lombeira da manhã. E antes de tirar a mão e de tirar o envelope, congelou. Mesmo vertendo em suor, sentiu o frio subindo pela espinha e parando nos dedos quando ouviu o grito agudo — e aquele dia tinha acordado para ter muitas idéias, pois por um segundo chegou a questionar porque todas as gordas soltavam gritos finos.

Não pôde olhar, mas na falta de coragem ou em um espelho que não existia, adivinhou. “Armado”, repetiu três vezes a mulher. O amigo olhou assustado, sentindo, — e por sentir, lembrando — o cano do revólver na cintura. A mulher gritava, agitando os braços, as pelancas como hélices no ar. Os olhos esbugalhados no guri que sem saber o que fazer buscou o olhar da moça do balcão. Ela, lábios abandonados pelo batom, olhou em socorro para o segurança, e este, adivinhando estar ali a oportunidade de brilhar com medalhas de bairro, sacou a arma apontando para ele, que com medo de ter alguma certeza, não olhava para ninguém. “Não mexe essa mão, pivete”. Ele não iria mexer. A mão continuaria encharcando o envelope, sentindo o papel, a pele suada. Não faria nada. Estava congelado no calor, sentindo nas costas a mesma ardência funda das surras do pai.

Tão rápido. O amigo decidiu tão rápido. Não era mais um guri que vendia balas nas sinaleiras. Agora era alguém que tinha emprego, que conhecia gente, pessoas importantes. Agora fazia serviços e por isso ganhara uma arma e por isso lhe tomava o direito de pensar rápido e medir decisões. Segurou o revólver, e era a segunda vez que segurava o revólver, apontou para a gorda, e era a primeira vez que apontava uma arma, porém o fato de ser alguém fazia o cano ser simples extensão do seu braço e a mulher calou diante do buraco negro que lhe fazia frente. Larga a arma, o menino achou ter ouvido. E ele não via, mas se era para largar, realmente existia uma.

Nesse momento, quis dizer que era tudo um engano. Queria só pagar uma conta. Um favor para a mãe. Trocar o dinheiro molhado pelo comprovante. Mas o café aguado subia do estômago virando saliva. Eram tantas coisas, as balas de goma, as sinaleiras, a mãe cansada, as surras do pai. Como erupções, embolando na garganta. Amontoados de coisas cresciam no mesmo minuto, e ele não sabia viver minutos cheios.

Era o amigo? Esse que girava o corpo? E era o seu braço que lhe havia batido as costas, queimando-lhe nas cicatrizes fundas? Era a voz do outro que mandava a mulher sair da frente e repetia que corresse logo? Voz que foi sendo perdida, até que só soubesse respirar o silêncio. E na verdade mal conseguiu puxar o ar, foi pouquíssimo o tempo. A gorda lembrou que ainda vivia, abriu a boca suada e lhe cuspindo nas costas, cingiu o ar com mais gritos histéricos. A moça do caixa o olhava, e o que dizia nos lábios sem batom? Largar que arma, se o amigo parecia ter ido embora? Um pagamento, só isso. E além de tudo tinham aparecido todas essas coisas, tantas coisas de uma vida, entaladas na garganta, como o Waldinei que quase tinha morrido com uma espinha de peixe. E porque parado era só mudez, resolveu mostrar. Olhou para o segurança, a arma apontada para seu corpo que era pouco, quase derretido de tão quente. Esse calor terrível, salgando de suor o envelope que tentou tirar envergonhado de baixo da camiseta.

Já tinha escutado tiros, é claro que sim. Mas nunca tão perto, nunca na sua frente. O cano como um poço fundo vomitando o estampido seco, confundido com mais histerismo e agora um urro – foi assim, único e retorcido o urro que a moça deixou fugir entre os lábios.

Estava frio o piso, e isso foi bom. As costas ensopadas, colando agradecidas no gelado. As pernas dormentes, cabelos amortecendo o som duro da cabeça no chão. O envelope soltou dos dedos. E eram dedos que não mais conseguia sentir, tão estranha a sensação das mãos não lhe pertencendo. Sabia que sua camiseta encharcava, inundando no calor que parecia esmagar. Cada vez mais quente e os olhos cada vez mais marejados, os gritos da gorda ficando fracos como a voz da mãe cantando no tanque, enquanto ele sumia debaixo do chuveiro, esfregando as orelhas. A camiseta grudada no estômago — e como esse era um dia de ter idéias, estranhou não sentir mais fome.

Como nos filmes de deserto viu oscilar o teto pardo, a moça ainda do outro lado do balcão. E ela parecia chorar, ou será que apenas suava? Porque estava cada vez mais quente lá dentro. O segurança cresceu ao seu lado. Como é que eu ia adivinhar, entraram juntos e ele com a mão por baixo da camiseta? Espesso, queimando a garganta, deveria ser o café aguado, porque todo esse calor estava lhe provocando uma náusea, deveria ser só o café que voltava ácido ou apenas o suor, o mesmo que vertia do seu corpo formando uma poça no chão. Queria pedir desculpas pela confusão e dizer que não era nada, só precisava pagar uma conta para mãe que estava fazendo um favor para a patroa, que acharia que a mãe era muito boazinha e assim manteria o seu emprego e até, quem sabe, lhe desse uma galinha e uma garrafa de cidra, já que era quase Natal. Havia nele certo alívio, porque sabia que agora o envelope seria visto, e tudo bem, era pegar o papel, colocar no bolso, e talvez hoje, já que essa manhã parecia não pertencer ao seu verão, vendesse todas as balas. Uma placidez em saber que tudo seguiria simplesmente sendo. E a mãe não perderia o emprego, porque era atrapalhada, mas era tão boa a mãe. Que o envelope fosse pego logo, pois cada vez mais afundava em seu suor. Um suor vermelho no calor insuportável de Porto Alegre. Vermelho e praticamente um inferno, ali no chão. E no inferno é sempre assim, verão o ano inteiro.

* Publicado em 103 que contam, org. Charles Kiefer; ed. Nova Prova

6 Respostas para “Daniela Langer

  1. danica, não sei se os autores podem deixar recados para os outros autores, mas é demias este teu conto
    da tua fã
    (e não me venha falar em puxasaquismo)

  2. Adorei o conto! Metáforas rápidas, precisas: “lábios abandonados pelo batom” – que lindo!

  3. Simplesmente adoreiiii!

  4. Josimara Tonella- Estigarribia

    Oi, Dani

    adorei te encontrar aqui em Sampa.
    amei teu conto ~primo Lucas~…guria talentosa!

    beijos da Jo

  5. Prezada escritora Daniela após a troca de idéias sobre o pessoal de oficinas e contosem que eu, Cesar Pereira, dizia que alguns escritores tinham o “tique” de oficineiro. Todavia, naquela mesma tarde comprei a antologia “Inventário das Delicadezas” e ao ler teus contos conclui que você realmente é uma excelente contista. Pode até partir para o romance.
    Gostaria de fazer alguns comentários sobre teus contos. Pode me enviar um e-mail com teu endereço para que te mande as páginas dos teus contos xerocadas, trocando idéias sobre alguns probleminhas, que em muito colaborará com teu talento??

    Favor responder para o e-mail gii_pereira@hotmail.com

  6. Você conquistou mais uma admiradora, Daniela.

    🙂

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