Leila de Souza Teixeira

 Autora de “Água e Sabão”, “(Des) Controle” e Te Amo???”

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Nos momentos Formiga, trabalha como advogada em um formigueiro de Porto Alegre. Nos momentos Cigarra, brinca de escritora em vôos pelo mundo. Filha de dois alucinados por literatura e língua portuguesa, nasceu em 1979, em Passo Fundo. Está na Antologia 102 que Contam, organizada por Charles Kiefer. Foi premiada no I Concurso Mário Quintana, da SINTRAJUFE/RS, e no II Concurso Osman Lins de Contos, da Prefeitura de Recife. Escreve porque quem ela ama ama ler o que ela escreve.

Virtualmente reside em: http://missivirtua.blog.terra.com.br 


Processo Desconstrutivo

Para: anamaria1979@hermail.com.

Cc:

Cco:

Assunto: crise, crítica, criação.

Oi, Ana. Não consigo finalizar meu conto. Na verdade, nem comecei a escrevê-lo. Há um emaranhado de idéias. Uma teia pegajosa de elementos, na qual estou presa. Eu mosca. À espera da aranha, de seu bote certeiro. Tenho que me livrar desta armadilha. Desfazer a teia. Organizar estes fatos, rostos, vozes.

Não posso dizer as coisas diretamente. Eu quero ordenar as coisas, mas sem deixá-las explícitas. Desejo-as subentendidas. Preciso de símbolos.

Deixa eu ver: estou sentada na poltrona em frente ao espelho, meu laptop sobre meus joelhos, atrás de mim, de um lado, o calendário que você me deu, justamente no mês de abril, a página dos plátanos com as folhas amareladas, do outro, o cartaz do “8 e ½” emoldurado. Poderia falar do espelho, do calendário, uma introspecção (o espelho), um reflexo (o espelho), o tempo passando (o calendário). Talvez, os plátanos. Sim, os plátanos, eu envelhecendo, chegando ao outono da minha vida, quem sabe. Não! Eu, não! Quero escrever sobre a mãe. Ela envelhecendo, chegando no outono da vida dela. Em frente ao espelho oval do banheiro. O cabelo branco que a tintura não consegue esconder. Óculos de leitura. Gordinha. Então, lembra de um fim de tarde. Diante do retrovisor do fusca amarelo. As melenas negras compridas amarradas em um rabo de cavalo. Óculos de sol. Magérrima.

(Se fosse um roteiro, ficaria melhor.

“SEQÜÊNCIA DE MONTAGEM

INTERNA. BANHEIRO MÃE – DIA

EXTERNA. FUSCA AMARELO – DIA

MÃE de costas olha para sua imagem em um espelho oval. Raízes brancas do cabelo pintado. Olhos da mãe com óculos de grau refletidos no espelho (CLOSEUP).

Olhos da mãe com óculos escuros refletidos no espelho (CLOSEUP). Mãe de costas olha para sua imagem em um espelho retrovisor de automóvel. Cabelos pretos compridos amarrados em rabo de cavalo.”

Mas é um conto. Voltemos.)

Olhos nos próprios olhos. Olhos nos meus olhos. Estou caminhando na calçada, ao lado do veículo, na mesma direção. Tenho cinco anos e carrego uma merendeira. Ela está indo me apanhar na escolinha. No meio do caminho, pela ventarola entra uma voz que grita, mãe, mãe, mãe. Pára o carro e olha para trás, à esquerda. Eu estou na esquina e abano. Um diálogo, o que você está fazendo aqui, minha filha, quero ir sozinha para casa, mas você é muito pequena, a Lisandra vai, é que ela mora na frente do colégio, eu quero ir, entra no carro, filinha, não, eu vou a pé. Começo a caminhar. O fusca dá meia volta e me segue. O retrovisor. Olhos nos próprios olhos. Olhos nos meus olhos. Estou caminhando na calçada, ao lado do veículo, na mesma direção. Tenho cinco anos e carrego uma merendeira.

Ela veste uma jaqueta de couro com uma insígnia da força aérea. Eu sei que a mãe nunca teve uma roupa assim, mas este é outro símbolo. Uma mulher corajosa. Disciplinada. Autoritária. Uma mãe autoritária, que diante de uma situação como esta, não consegue colocar sua filha dentro do automóvel. O que a impediu? O espelho. Ela olha para a menina (e, agora, já não somos mais, a mãe e eu; as personagens desvincularam-se de nós, tornaram-se autônomas), como eu disse, ela olha para a menina, e se vê no espelho, olha para o espelho, e vê a menina. Ela, menina, espelho, espelho, ela, menina. Então, acorda desta lembrança diante da sua imagem na moldura oval do banheiro. O cabelo branco e todo o resto.

Mas por que escrever sobre isso? Qual a minha intenção com esta história? Prestar uma homenagem? Organizar a confusão de lembranças que habita minha mente? (Sim, porque o meu cérebro é um manicômio onde milhões de pensamentos correm desordenadamente gritando e pedindo atenção). Ai! Eu, de novo, mosca. A teia gigante e pegajosa. Enroladas, comigo, desta vez, a mãe, a menina, a mãe da menina. À espera da aranha. Ana, não consigo finalizar meu conto. Na verdade, nem comecei a escrevê-lo.

Mouse. Selecionar tudo. Excluir

* Conto vencedor do 2° Concurso Osman Lins de Contos, da Prefeitura Municpal de Recife/Pe, publicado na respectiva Coletânea, em 2007. 

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6 Respostas para “Leila de Souza Teixeira

  1. Sinto sempre esse descontrole, quando não sei se amo, quando acho que amo, quando preciso descobrir, sinto-me presa, sinto-me suja e preciso lavar a alma…dê me água, sábão e literatura!!!
    Leila quero ler tudinho abraçãooo!!!

  2. foi um acento a mais ali, mas, bati sem querer na tecla!!! q será q eu fiz? nem sei

  3. … fico feliz em te ver neste projeto. Mais feliz, ainda, em saber que está de volta !!!
    Um beijinho,

  4. Fusca amarelo, fusca amarelo, fusca amarelo, nunca vou esquecer. Nem o fusca amarelo, nem você, pequena Leila. Não sei porque (é junto sem acento, mesmo?) mas me deu uma puta vontade de chorar…

  5. Amada Leiloka, o teu retorno, certamente, nos trará grandes alegrias e uma convivência maravilhosa! Lendo o que escreves ou cantando o que cantares…Superbeijo Fedóca

  6. Josimara Tonella- Estigarribia

    Querida Leila,

    foi muito bom te encontar de novo.
    Adorei teu conto ~Te amo~

    beijos da Jo

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