Leonardo Colucci

Autor de “Acerto de Contas”, “Dionísio e eu” e “Uma noite na República”

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Nasceu em Caçapava do Sul e está no mundo desde 71. Iniciou na literatura há alguns anos quando integrou a oficina Charles Kiefer, tendo trabalhos publicados em antologias de contos e mini-contos organizados pelo autor. Escreve madrugada adentro ouvindo blues e bebendo vinho até seus personagens se recolherem para dormir.

 

Os textos aqui apresentados foram forjados pela delicada convivência com os parceiros deste inventário.

 

Para saber mais visite-o em: http://contagotas.blog.terra.com.br ou escreva para lmcolucci@terra.com.br

 

 


Cama e Mesa

Maria Alice tinha uma maneira muito peculiar de escolher os seus homens. Acreditava que através da observação de como eles se portavam à mesa seria possível identificar os traços mais fortes de suas personalidades. Assim, depois de alguns relacionamentos desfeitos por absoluta incompatibilidade, ela decidiu que seria mais criteriosa na escolha de seu próximo parceiro, mesmo que isso significasse um longo período de solidão. Aprenderia a ficar só.

Fiel a seus propósitos, não aceitava convites para sair que não incluíssem almoço ou jantar. Assim, já havia descartado vários pretendentes. Aqueles que tinham a inspiração de convidá-la para ir a um restaurante, eram contemplados com sua companhia. Vários encontros se sucederam, mas o processo de seleção era rigoroso:

 Joel, por exemplo, era muito educado e respeitoso, porém não se demonstrava seguro na hora de escolher o restaurante, nem sequer o prato que pediria no menu. Típico homem que não tem firmeza nas decisões. Foi, então, reprovado nos quesitos segurança e autoconfiança.

Sandro, ao contrário, era extremamente decidido. Servia-se rapidamente e da mesma forma devorava sua refeição. Não se importava com sobras ou qualidade, queria mesmo era acabar logo com aquilo. Típico comportamento egocêntrico. Devia ser essa a maneira que se relacionava com os outros: descartáveis. Este foi descartado por egoísmo e falta de sensibilidade.

Marcos levou-a ao melhor restaurante da cidade, pediu os pratos mais caros e exóticos, reservou a melhor mesa e pediu o vinho mais fino. Veredicto: exibicionista.

Samuel parecia perfeito. Atencioso, havia esperado que ela se servisse, prestou atenção na sua conversa, comeu pouco e não misturou o arroz com o molho ou o purê. Seria o eleito, não fosse ele o marido de Sandra, que se servia sempre antes e invariavelmente ainda pegava o último pedaço de carne da mesa. “Ele não merece a mulher que tem”, concluiu em seus apontamentos.

Jean, vegetariano, foi dispensado sem comentários na porta do restaurante.

Muitos foram os candidatos e os perfis se repetiram. Poucos homens causaram boa impressão, raros foram os que tiveram uma segunda chance, mas nenhum até aquele momento a havia surpreendido.

Até que um dia, num restaurante qualquer, em um almoço qualquer, sentado à mesa ao lado, estava Jacques. Ela ainda não podia ver o seu rosto, da posição em que estava, mas apaixonou-se pelo modo como ele cortava a carne. Seu prato era limpo e organizado, e não havia pressa alguma em seus movimentos. Nada desviava a sua atenção.

Maria Alice, não resistiu e, levantando-se de seu lugar, pediu permissão para sentar-se junto a ele e fazer-lhe companhia durante o almoço. Nesse momento foi que percebeu quão belo ele era.

Jacques, então, colocou-se de pé, e apresentou-se enquanto gentilmente oferecia a cadeira para que a jovem se acomodasse.

Durante a conversa, ele revelou-se encantador e Maria Alice já não continha sua excitação. Estava deslumbrada com aquele homem e a maestria com a qual ele partia seu filé. A precisão dos cortes e o prazer que demonstrava a cada mordida eram fascinantes.

 Alguns jantares se seguiram e ela já estava convencida de que finalmente encontrara seu par. Envolvida, a moça entregou-se tão rapidamente a sua paixão que não percebeu ser apenas mais uma conquista, apenas mais uma vitima de sua insanidade. E foi assim que acabou Maria Alice: esquartejada pelo seu amante.

*Publicado no livro 103 que contam, org. Charles Kiefer, ed. Nova Prova

5 Respostas para “Leonardo Colucci

  1. Fala Coli!!!
    Tu está cada vez mais famoso!!! Gostei da tua prática de beber, quer dizer escrever durante a madrugada!!! Bem legal.
    Grande Abraço,
    do Amigão, Mario Borba

  2. Eu acho impressionante esse conto. Já havia lido tempos atrás, e não lembrava exatamente do final. Mas enquanto lia, me encaminhando para o final, foi me dando um medo, minha respiração foi ficando curta, coisa mais estranha…terminei a leitura com a testa franzida. Muito bom! Acho fascinantes essas sacadas que tu tens da condição humana, tu és muito imaginativo e escrevem bem pra caramba.

  3. desculpe, quis dizer: escreves bem para caramba!

  4. Tchê, não tenho nenhum cometário a tecer, além daquelas “babações de ovo” que tu já conhece….que além de ser um amigão do peito, um ótimo colega de trabalho, um extraordinário pai de família e uma pessoa muito sincera e justa….uffaaaa….ainda é um escritor e “finger man” de primeira….Rsrsrs….Abração meu camarada!!!!!

  5. Alexandre Marques da Rosa

    Grande Colluci, parabéns pela obra meu amigo, fico realmente muito feliz em saber que tu esta concretizando mais esse sonho na tua vida. Sabe, do tempo que trabalhávamos juntos, tem uma frase célebre que tu falou, que trago comigo com muito carinho e tento usar como norte em vários momentos da minha vida, tu disse mais ou menos assim “antes de tudo, eu quero ser um bom pai, um bom marido e fazer grandes amigos aqui, isso sim é importante…”. Essa com certeza vou levar comigo por muito tempo. Parabéns! Alexandre M.

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