Lívia Petry

 Autora de “Henriqueta”, “Nenhum Rosto” e “O sétimo dia”

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Nasceu em 1971 em Porto Alegre. Desde os cinco anos, tem paixão por contar histórias. Por isso entrou para o curso de Letras da UFRGS em 2001, editou um livro de poesias que se chama “O Exílio das Palavras”, participou das antologias “101 que Contam” e “103 que Contam”, organizadas por Charles Kiefer, e faz parte de um grupo chamado “Quem Conta um Conto”. Foi premiada no Concurso Poemas no Ônibus (2001) e no Concurso Mário Quintana de Poesia (2006). E agora vem trazer estas histórias singelas, feitas de inspiração e trabalho com as palavras.Pode ser contatada pelo: liviapetry@terra.com.br


A Travessia

O céu carregava essa mistura rósea-azulada quando Hernandez desceu do tordilho. Trazia nas costas o surrão cheio de contrabandos. Depositou-o sobre o balcão do bolicho, pigarreou. Que servissem uma dose de cachaça, um pouco de tabaco, um cigarro de palha.

O menino franzino, detrás das tábuas, obedeceu. Mirava-o com curiosidades de campesino, os olhos estreitos, faiscantes, rápidos. Hernandez nem reparou-lhe a bisbilhotice. Somente quando a voz de taquara verde fez a pergunta, é que se ouviu o estalo. Se vinha da fronteira? Vinha destes pagos que Deus fez imensos, ermos, recheados do palor da noite. O menino fez um muchocho. Algo nele se ressentia como quem acordasse de um sonho. Serviu uma segunda dose ao forasteiro, mirou-o com mais vagar:

trazia as botas enlameadas, o pala sujo com um rasgão do lado esquerdo, bigodes fartos, barba por fazer. Seu chapéu de feltro tinha uma marca ao lado. Marca era maneira de dizer, o homem carregava como enfeite um retrato de Nossa Senhora. Tinha ares de poucos amigos e um sotaque carregado que não negava suas origens. A mão espalmada sobre o balcão bateu duas vezes na madeira. Era surdo? Esta já era a segunda vez que pedia um naco de queijo e outro de salame. O rapazinho mirrado meteu-se entre os víveres, trouxe o pedido do freguês. Entregou-lhe aquela comida com um misto de simpatia e temor. Hernandez não viu o quase sorriso que se estendia naqueles lábios. Tinha de ser rápido, havia a encomenda para entregar, o dinheiro a receber. Havia Florbela esperando a sua volta. O vestido de noiva já devia estar pronto, ele sabia. Esta era a última viagem, depois assentava o facho num ranchinho só seu, lugar de ver o galo cocoricando, a mulher fazendo o carreteiro, ele arando a terra.

Diacho é que alguma coisa remexia dentro, não sabia bem o quê, havia apenas uma sensação de fagulha aquecendo os escondidos. Hernandez sentiu a tosse vindo, o escarro. Cuspiu um resto de tabaco preso entre os dentes, olhou pra porta. Lá fora, o descampado, as montanhas azuis na sua lonjura, um boi mocho puxando uma carroça. Um calor foi subindo pela garganta, adentrando os olhos, fazendo-se lágrima. Hernandez puxou uma nota de dinheiro que pagasse tudo. Deu as costas, saiu, montou outra vez o cavalo. Ia pelo caminho com essa gana de chorar. Se sentia do mesmo jeito desde que a mão de Ernesto tocou seu ombro.

Era noite fechada, os dois levando o carregamento, atravessando o rio. Não havia vigilância naquelas paragens, mas contrabando era sempre um risco. Muita gente disputando o mesmo território, o mesmo quinhão. Ernesto sabia disso e também conhecia as rotas alternativas. Ia para dez anos que fazia-se atravessador. Leal, ajudava a resguardar os companheiros. Já matara um homem para defender um dos seus.  Aquela era uma noite sem lua, puro breu. Os cavalos trotando n´agua gelada, o pio da coruja atravessando escuros, aquela solidão de dois, vasta, erma, do tamanho do rio.Não era possível enxergar a outra margem, mas pelo andar dos animais já deviam estar a meio da travessia. Foi aí que soaram os tiros: o bagual de Hernandez, assustado, disparou, fez-se raio. Só refreou o galope quando tocou em solo firme. Nesta hora é que ele viu o vulto correndo por detrás das ramagens. Pôs a garrucha sobre o ombro mas era tarde demais, não havia como acertá-lo. Voltou-se para o rio e então percebeu o acontecido: Ernesto não estava mais sobre o cavalo. Tentou encontrá-lo mas tudo o que via era aquela água negra. E o sangue escorrendo das rédeas do bagual de Ernesto. Hernandez tirou o chapéu, rezou um pai-nosso, tomou o rumo das coxilhas. O resto do carregamento deixou lá mesmo, não havia como levar.

Trotou noite adentro com este gosto amargo nos lábios, o rosto de Ernesto aparecendo na escuridão, cheio de bexigas, o cavanhaque loiro, o riso de dentes fora.

Parecia ouvir outra vez a voz do amigo, tentava apanhar as palavras mas o vento levava tudo embora. Uma brisa gelada cortava a face, fazia-o encolher-se dentro do pala. Um arrepio foi se instalando, tomando conta das pernas, do dorso, dos braços. Ele então ouviu nítido como um sino, o nome: Covarde! Esporeou o bagual como se correndo, escapasse de um mal maior. O animal resfolegou, balançou as crinas. Hernandez sentia então essa apertura no peito, o ar parado lá dentro. Uma dor de calos, uma dor de vozes querendo romper a garganta. E como se medo algum fosse capaz de pará-lo, gritou: Eia, filha da puta, assassino, eu te mato! Ergueu a garrucha sobre a cabeça, segurou firme e então, num repente, puxou as rédeas do cavalo. Mirou atrás o caminho de volta, o caminho do rio. Devia acabar com aquele um, fosse quem fosse, merecia sangrar feito boi no matadouro.

Devia isso ao Ernesto, ele que não fugia de nada nem de ninguém.Um fogo incendiava-lhe o rosto, os olhos, pedia sangue naquelas mãos.

Foi aí que ouviu um assovio fino e uma lufada de vento quase arrebatou seu chapéu. Ainda teve tempo de segurá-lo e sentiu entre os dedos o que não sentira antes. Tomou o chapéu e viu a última lembrança do amigo, presa á aba. Era um retrato de Nossa Senhora que Ernesto havia lhe dado antes da travessia. Aproximou-o do peito, rompeu em choro. Ouviu outra vez a voz do companheiro: “Toma Hernandez, pede a ela que guie o teu cavalo quando precisares de ajuda, esta Santa já salvou minha vida, pode salvar a tua.” De súbito ele sentiu aquele adejo, aquela certeza apaziguando a alma. Afrouxou as rédeas e deixou que o bagual seguisse adiante. A madrugada ia morrendo quando o animal chegou num arranchado. Era mais uma tapera que outra coisa. Ele bateu à porta, esperou. Um homem de barba branca, fala arrastada, atendeu. Deu-lhe pouso, comida, água para o cavalo. Indicou um atalho para chegar à cidade. Era um atalho pouco usado mas valia a pena: economizava-se meio dia de viagem. Hernandez agradeceu e tomou seu rumo. O dia já ia alto quando entrou na estrada. O sol batia nas pedras, ardia nas vistas.

Á volta, uma paisagem de árvores retorcidas, galhos secos, grama queimada. O caminho, um cemitério de rochas. Um joão de barro cruzou o céu, foi fazer ninho num tronco logo adiante. Tudo ali era terra devastada, erma, esquecida por Deus. Nada havia que rompesse aquele silêncio, desmesurada solidão.

Já tinha seguido boa parte do caminho quando avistou uma pedra maior que as outras. Ficava ao largo da estrada e parecia se erguer como um pequeno monte.

Devia medir uns bons dez metros de altura. Foi então que ouviu o relinchar de um outro cavalo. Instintivamente segurou a garrucha. Aproximou-se e viu detrás da rocha o cavalo de Ernesto. Mais diante, em meio a uns arbustos secos, um homem urinava. Foi o tempo de mirar e acertar contas. As balas zuniram, cortaram o ar, desfizeram carnes. E como quisesse certeza do serviço feito, Hernandez chegou perto do corpo e deu um último tiro bem no rosto do desgraçado. Depois tomou as rédeas do cavalo de Ernesto e seguiu com as suas cargas estrada afora. O sol batia em sua pele feito brasa e neste incêndio, Hernandez ria, sentia um gosto agridoce nos lábios, sentia ganas de cantar, gritar, chamar por Florbela, tomá-la nos braços. Florbela toda branca, toda em grinaldas e véus, esperando por ele, pelo carregamento, pelos filhos que ainda haviam de ter.

*Publicado em 103 que contam, org. Charles Kiefer; ed. Nova Prova.

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