Nelson Rego

 Autor de “2222 cisnes brincando de locomotivas e vagões”, “É pesado este balde, Chica” e “Permanecendo”

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Professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, organizou três livros reunindo autores com trabalhos em educação popular e práticas sócio-ambientais, formando a coleção Geração de ambiências. Escreveu o livro de biografias ficcionais Tão grande quase nada (2004). Foi premiado no Concurso Nacional de Poesia Raimundo Corrêa em 1984 e 1985.

Pode ser contatado no email: nelson.rego@ufrgs.br


Trecho do livro Tão Grande Quase Nada

Inocência sabia do brinquedo de Lara comigo no jardim botânico. Ela achava graça. Esse saber cúmplice de Inocência tornava mais próximo o horizonte daquilo que nós três sabíamos que estava para acontecer.

Um dia Lara me contou que ela e Inocência, naquela manhã, haviam se beijado no horário do recreio no colégio. Esse foi um dos momentos mais intensos da minha vida: os olhos faceiros de Lara, seu sorriso por estar a me contar o que acontecera e por ver em meu rosto também um sorriso. Beijamo-nos, um calorzinho tranqüilo estava dentro e em volta de nós, envolvendo nosso abraço e beijo. Ainda sinto nos meus dedos a textura da blusa de Lara, continuo ouvindo as vozes das crianças que passavam na calçada, no outro lado da rua. Aquele calorzinho que vinha de Lara me comunicava como um amor poderia ser para sempre, cada vez mais para dentro, para o fundo, sempre mais para fora, para tudo.

Perguntei a Lara como acontecera o beijo com Inocência. Elas haviam saído juntas da sala de aula e caminhado para um recanto do pátio escolar. Falavam sobre o exame de matemática que seria dali a três dias. Nenhuma das duas estava com vontade de estudar. Conversaram sobre umas novas pinturas que haviam iniciado na escolinha de artes do colégio. Permaneceram em silêncio, olhando as outras meninas andando pelo pátio mais além. Os ramos debruçados da árvore em que as duas estavam encostadas deixavam-nas semi-ocultas das outras. Lara sentiu uma sonolência prazerosa, ouvindo o murmúrio das meninas pelo pátio, o vento nas folhas, vendo o mundo diluído através das pálpebras semicerradas, o sol pálido, um pouco de frio. Lara estava ali, sentindo-se tão próxima e distante do pátio escolar, achando os raiozinhos de sol tão lindos. O sino ia dar o seu primeiro badalo, chamando para o reinício das aulas. Inocência estava ao seu lado, parecia também absorta nos raiozinhos de sol, no murmúrio das folhas e das meninas. Lara sentiu aquilo que nós dois conhecíamos, desde o tempo das músicas lentas dos Beatles, como uma felicidade dolorida. O sino tocou. As meninas começaram a retirar-se do pátio, voltando para as salas.  Lara e Inocência permaneceram sob as árvores. Houve um olhar e um sorriso em seus rostos.  Um sorriso que se tornou um pouco encabulado porque havia algo prometendo-se iminente no olhar prolongado das duas. Lara deu um suave beijinho na face de Inocência. As mãos se encostaram, os rostos se aproximaram. Inocência olhou para os lábios de Lara. Os sorrisos tornaram-se maiores e mais encabulados. O sino badalou pela segunda vez, o definitivo aviso para o fim do recreio. Lara acariciou os cabelos de Inocência e aproximou seu rosto de si, deu-lhe um breve beijo nos lábios. Inocência passou seu braço em torno de Lara, o definitivo beijo foi lento e apaixonado.

No dia seguinte fui buscar Lara na saída do colégio. Inocência despediu-se dela com um rápido beijinho nos lábios. Outro, em mim – o meu primeiro beijinho nos lábios de Inocência. Naquele dia eu passei aéreo, sem conseguir me concentrar em nada que não fosse a recordação daquele instante, sentindo-me bobo de tão feliz. Eu e Lara passeamos de mão dada pelo parque, ficamos olhando os patinhos nadando num dos lagos.

2 Respostas para “Nelson Rego

  1. Nelson, fiquei supercontente contigo – para mim, é um absurdo eu não saber de teu lado escritor!!!
    Mas afinal, acho que arte énecessária, dealguma forma, para geografar…
    Grande abraço!

  2. Em um mundo onde a delicadeza e a gentileza estão em desuso, em que em todo lugar nos é sempre exigido mais que boas intenções e sorrisos, em um mundo em que consumimos a vida na luta pela sobrevivência admiro cada vez mais as pessoas que se importam com miudezas e detalhes. O Nelson é uma destas pessoas, e destaca-se porque através de seus textos “oficiais e extra-oficiais” (se ele assim permite que eu me refira), transitar pelas mais amplas maneiras de existir, onde sempre com um olhar amoroso e nobre nos leva por passeios ao encontro do que lhe é tão habitual, enxergar, criar e admirar possibilidade para um pensamento e uma vida livres.
    Assim sendo, não creio que se possa ler qualquer coisa do Nelson sem que algum tipo de perturbação rosne em nossa mente, porque por mais singelo que o texto pareça ele vem sempre carregado de ruídos que encontram ecos em nosso interior e nos arremessam violentamente ao encontro de quem fomos, somos, pensamos ser ou seremos um dia. É sempre uma escrita que prioriza a vida, mesmo que depois fiquemos a pensar, a procurar palavras a nos sentir sem gravidade ou gravemente febris, por vermos e nos vermos retratados sem julgamentos morais, sem a necessidade dos ordenamentos a que todos estamos habituados.
    E na luta por transformar minhas asas em delicadas telas coloridas e viver a vida sem tantas amarras, só tenho a agradecer e traduzir o que sinto em relação a escrita do Querido Nelson com as melodiosas palavras de Manoel de Barros.

    A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
    Meu fado é o de não saber quase tudo.
    Sobre o nada eu tenho profundidades.
    Não tenho conexões com a realidade.
    Poderoso pra mim não é aquele que descobre ouro.
    Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
    Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
    Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco pra elogios.

    Suerte, Lu Reffatti.

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