Valmor Bordin

Autor de “Angústia”, “Memórias de um canhoto” e “Um rato”

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Nasceu em Jacutinga, RS. É médico e mora em Passo Fundo, e desde 2005 viaja todas as semanas a Porto Alegre para participar da Oficina. Publicou contos nas antologias 102 que Contam, 103 que Contam e Brevíssimos! Foi premiado no concurso CK de contos de 2006, participando do livro 30 contos Imperdíveis, e venceu, em primeiro lugar, o VI Concurso Nacional de Poesia promovido pela Fenavinho, com o poema “Canção dos Vinhedos”.

Pode ser contatado no valmorbordin@tpo.com.br


Breve história de uma menina invisível

O fiapo de gente sobe a escadaria da capela, engatinhando como um espinhaço beijando o chão. Melancólica e doente chega até a porta e pelas frestas fareja o interior, enquanto os vitrais e as velas se apagam.

Vai dormir na calçada, exposta ao frio.

Passou vergonha todo o dia ao estender sua mão para mãos indiferentes. Nunca conheceu o peito materno. Tem a vista limitada, mas o nariz é apurado como o de um cão. Tosse, faz o sinal da cruz e deita. Nunca, em sua curta existência, comeu um pão que não fosse o negro pão amassado e misturado ao mel da caridade fingida.

Enquanto o sono não chega, conta os carros que passam em frente aos seus olhos baços: cem, duzentos, quinhentos. Tem os braços e o peito cobertos de marcas vermelhas. Sente-se um pedaço de bicho, que andou entre lixeiras-covas e que aos poucos foi perdendo a vontade de viver. Fatigada, não suporta mais a luz do sol. Andou no dia faiscante, pelas cansativas ruas do centro, ofegando de calor e com a língua amarga buscou novidades e vagou pedindo esmolas aos passantes caridosos.

A escuridão lhe traz alívio, então dorme como um cão de olhos medrosos sem o benefício da visão clara, mas que na noite preta farejam o dono à longa distância.

A noite cai, devagar.

Como uma víscera palpitante, equilibra as mãos cruelmente rasgadas na lâmina fria do concreto e arfa o peito raquítico com medo que alguém lhe pise os dedos ou que seja enxotada do seu pequeno paraíso.

A boca saliva.

Suas narinas excitam-se e seus olhos grandes e pretos abrem-se, bruscamente. Move a cabeça em várias direções, deslumbrada, a pretexto das lêndeas e piolhos. Espia convencida de que uma pequena manifestação humana se aproxima da escada e chega até os seus desejos.

Cruza em frente aos seus olhos doentes e áridos uma outra menina de mãos dadas com a mãe, passeando a língua sobre um sorvete de morango. Vê o vulto encolhido embaixo do cobertor e pergunta:

“O que é mamãe?”

“Não é ninguém.”

(…)

A guloseima atiça-lhe a saliva enquanto os piolhos e as lêndeas farejam seu sangue gotinha por gotinha. O cheiro doce entra pelas narinas e foge por suas nervuras misturando-se ao corpo magro. Chupara há pouco um pedaço de carne vermelha, catada numa lixeira e o sangue ressequido ficou grudado em sua boca.

Uma fome horrível queima-lhe o estômago. Passa a pequena língua pelos lábios secos e chora lágrimas em pó. O cheiro doce agora é fraco e vai sumindo pela névoa da noite que engrossa e cobre seus olhos, enquanto suas pálpebras vão descendo.

Em sua breve existência, grudada às latas de lixo como um carrapato, sobreviveu ao sarampo, à varicela, à desinteria, ao cólera e até à fome.  Forte como uma bactéria-resistente, passou com um mínimo de roupa e alguma comida. Para a alma, não teve nada.

Não sobreviveu à solidão.

Pela manhã, a menina-morta é recolhida na escadaria da capela e colocada na tina de formol de uma asséptica sala do necrotério, depois é transportada para uma mesa de alumínio.

Pálida como uma boneca de cera de olhos abertos, mira o vazio, ainda tem sob as unhas o fiapo de lã de seu cobertor e restos de sangue ressequido ao redor da boca.

O grupo de colegiais chega para sua primeira aula de anatomia, usam jalecos brancos manchados de suor pegajoso.

À cabeceira da mesa, o anatomista interrompe o silêncio da sala. Ao falar, um perdigoto lhe escapa da boca. Desenha um corte imaginário sobre o peito da menina: “Abram o tórax, rebatam os músculos e prezem pela riqueza dos nervos e veias”.

Então, dezenas de bisturis, com regularidade mecânica vão fatiando o corpo. As peças de tão fininhas e leves, podem até voar.

Minguando aos poucos, a menina torna-se um invisível cobertor de células sobre a lâmina fria do microscópio.

* Publicado em 103 que Contam (2006), Org. Charles Kiefer; Ed. Nova Prova.

2 Respostas para “Valmor Bordin

  1. Tu é um demônio de bom.

  2. Parabéns! E´um belo texto. Dá vida a um corpo embebecido no formol.

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